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  Embargo russo: queda drástica de preços agrícolas em Portugal

Desde que foi anunciada a proibição de venda para a Rússia, em Agosto, e pelo mercado ter sido inundado de pêras, maçãs ou cenouras, os preços destes produtos têm vindo a sofrer reduções, sendo que no caso da pêra-rocha, estas ultrapassam os 40%.

A actual campanha da pêra rocha tinha tudo para dar certo, a fruta tem bom tamanho e as perspectivas estavam em alta depois de 2 anos pouco favoráveis, com a pêra a crescer pequena nas árvores e a render menos aos agricultores. Mas o embargo russo deitou por terra todas as contas.

“Os nossos clientes começaram-nos a contactar logo no dia seguinte a dizer que os preços estavam a sofrer uma pressão muito grande de produtores de outros países, como a Holanda, França, ou Espanha. O problema é geral: se há excesso de oferta o consumidor vai optar sempre pelo produto mais barato, deixando de comprar os outros”, afirma Domingos dos Santos.

Na Frutoeste, organização de produtores de pêra rocha, limões e maçã, a exportação representa 70% do volume de negócios (sobretudo pêra), mas o impacto do embargo russo está a ter consequência indirectas, que vão muito além do fim das vendas para aquele mercado. Acontece que a Rússia é o 2º maior comprador de produtos agrícolas da União Europeia e 73% dos bens embargados são fornecidos pelos Estados-membros da UE. A resposta política de Moscovo às sanções económicas e financeiras impostas pela União Europeia, Noruega, Estados Unidos, Austrália e Canadá (na sequência do conflito na Ucrânia) está a provocar uma descida de preços na fruta, vegetais, carne de porco ou leite e, num mercado globalizado.

No início do mês, 300 agricultores polacos protestaram em Varsóvia a exigir mais ajudas a Bruxelas. A Polónia é o maior exportador de maçãs do mundo, produzindo anualmente três milhões de toneladas das quais um terço eram vendidas à Rússia. O fim do comércio com o seu principal cliente deixou os produtores desesperados, as maçãs polacas entraram noutros países, aumentando a oferta de um dia para o outro, fazendo, causando a descida de preços.

Domingos dos Santos, presidente da Federação Nacional das Organizações de Produtores de Frutas e Hortícolas (Fnop), sublinha que “o problema não são as oito mil toneladas de exportações da fileira em Portugal”. “Na mais recente feira do sector em Madrid, a Polónia tinha um stand enorme para promover as suas maçãs. Vêm do norte da Europa, para o Sul, estão a tentar vender em todo o lado e a preços muito mais baixos”, conta. No caso da pêra rocha, as descidas de preços são na ordem dos 40 a 50%, face ao valor normal de campanha, adianta.

Os valores são semelhantes ao que se passa noutros países europeus. Há pouco mais de uma semana, secretário-geral da Copa Cogeca ,Pekka Pesonen, que representa os agricultores na União Europeia, alertava para uma descida abrupta dos preços de 50% em alguns sectores. Este era, aliás, um dos receios de Bruxelas quando avançou com as medidas de apoio extraordinárias que, no total, totalizam 290 milhões de euros.

O presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal, João Machado, refere que no caso da pêra rocha, característica da região do Oeste, a influência do embargo “é brutal”. “Há muita concorrência no mercado da fruta e no caso da pêra rocha os preços à produção baixaram, por vezes, abaixo do preço de custo, o que é preocupante”, afirma. Este movimento de descida afecta outros produtos e João Machado admite que à CAP têm chegado queixas. “Há os produtores que estão abrangidos pelo embargo [ou seja, que vendiam para a Rússia] e os que estão a sofrer com a baixa de preço por via do aumento de concorrência. Mas ainda não é um problema global e em Portugal está bastante mais minimizado do que noutros Estados membros”, desdramatiza.

Carlos Marques também esteve na mesma feira em Madrid e viu o investimento em promoção externa feito pela Polónia. A Hortapronta foi das primeiras organizações de produtores (OP) a conseguir apoios de Bruxelas à retirada de produtos. Os seus 140 produtores entregam couve coração, couve lombarda, alho francês, cenouras e batatas na central hortofrutícola instalada na Atouguia da Baleia, às portas de Peniche. As ajudas incidiram apenas sobre a cenoura, agora destinada ao Banco Alimentar contra a Fome - a instituição que está a receber e distribuir os excedentes.

“Neste momento, como não estamos a exportar, estamos a ficar com stocks de batata nas câmaras frigoríficas. A maior dificuldade será quando estivermos em plena produção”, diz. Esta OP tem três mil toneladas de batata armazenadas e Carlos Marques diz que, em tempo útil, “é muito difícil encontrar mercados alternativos”. “Em África temos a concorrência directa dos holandeses e dos belgas”, ilustra, acrescentando que o esforço de venda está a ser feito no mercado nacional. Talvez por isso - e de acordo com uma recolha feita pelo Público numa das maiores cadeias de distribuição - o preço da cenoura desceu de 0,65 cêntimos na primeira semana de Abril para 0,39 cêntimos na passada sexta-feira. Ou seja, 33% menos.

Nos restantes produtos, colhidos diariamente pelos produtores associados da Hortapronta, é mais fácil “equilibrar as quantidades”. “Ainda assim, os preços caíram 50 a 60%”, garante Carlos Marques. A queda de valores na produção não é explicada apenas pelo embargo russo. O facto de os portugueses terem cortado em todos os gastos ligados à alimentação ambém afectou o negócio dos agricultores. Os dois ingredientes juntos (quebra de consumo e embargo russo) são uma mistura explosiva. “Ou a União Europeia responde com outras medidas excepcionais ou a agricultura não vai aguentar. Neste momento, os agricultores já não têm dinheiro para produzir. É sempre a perder dinheiro”, diz.

Em respostas enviadas ao Público, fonte oficial do Ministério da Agricultura cita as cotações de preços e diz que os preços da maçã royal gala desceram 25% na última semana disponível. No caso da pêra, os valores em Leiria são 24% inferiores ao ano passado e 22% abaixo da média do triénio de 2010-2012. Já no caso do leite, os preços subiram ligeiramente em Setembro, mas são 5% inferiores face ao ano passado. Quanto à carne de porco, outro dos produtos afectados, o preço caiu 22% desde o início de Setembro, ao mesmo tempo que se registou um aumento da produção (de 1,6% face ao ano anterior).

O ministério estima que o impacto directo do embargo russo nas exportações nacionais seja de 15 milhões de euros, uma pequena fatia dos 50 milhões anuais, já há sectores que não se encontram abrangidos, como o vinho ou o azeite. A busca de mercados alternativos tem sido apontada como uma solução, mas não terá efeitos práticos imediatos. Além do tempo necessário para encontrar clientes, há países onde não está autorizada a venda de produtos como a pêra rocha (África do Sul, por exemplo).

Em tempos conturbados, os agricultores estão a tentar unir esforços. Domingos dos Santos conta que para acelerar a exportação em novos países, seis empresas (Campotec, Ecofrutas, Ferreira da Silva, Frutoeste, Granfer e Lusopêra) juntaram-se para criar a Unifarmers, que tem como missão identificar, promover e vender frutas e legumes de Portugal em países com potencial de consumo.

Quase 80% das reservas de emergência de 2015 já se esgotaram

Para ajudar os produtores a combater os impactos económicos do embargo russo, Bruxelas anunciou ainda em Agosto um primeiro pacote de ajudas de 125 milhões de euros que, muito graças à ágil movimentação da Polónia, se esgotou em tempo record. Portugal conseguiu 707.575 euros de ajudas, dos 1,16 milhões de euros solicitados. Já em Outubro, a comissão criou uma nova tranche de 165 milhões de euros, a apresentar regras mais rígidas e equilibradas.

A estes montantes juntam-se apoios para o sector do leite. Contas feitas, são 344 milhões de euros, que equivalem a 79% da reserva de emergência prevista pela Política Agrícola Comum (PAC) para 2015, onde Bruxelas quer ir buscar as verbas.

Contudo, a alocação destes fundos já foi contestada por 21 Estados-membros, Portugal incluído. “A reserva de crise deve ser preservada para manter a nossa capacidade de resposta a qualquer dificuldade em 2015”, defenderam. Ao usar o fundo de emergência, sobram apenas 89 milhões de euros para fazer face a qualquer imprevisto no sector no próximo ano.

Polónia, Holanda, Espanha, Alemanha, Dinamarca, França e Finlândia são os países mais afectados pelo embargo. No entanto, os produtores têm tentado vender para a Rússia através de outros países. Ainda recentemente, a autoridade de segurança alimentar russa travou a importação de 21 toneladas de maçãs polacas, vindas do Cazaquistão e sem etiquetas. A fruta acabou por ser devolvida. Foram ainda detectadas 7500 toneladas de carne de porco provenientes da Lituânia.

Fonte: ANIL / Público

 
 
26-11-2014
       
 
   
 
 
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