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  Parar para reflectir sobre a alimentação em Portugal

No dia mundial da alimentação, que se assinala em todo o mundo a 16 de Outubro, é uma oportunidade única para reflectir sobre a alimentação inadequada, o principal determinante dos anos de vida saudável perdidos pelos portugueses. E sobre a produção, transporte e consumo de alimentos, a atividade que mais polui e consome recursos à face da terra.

A reflexão pode fazer-se à luz de um Portugal com uma população mais letrada e uma maior consciência sobre o papel da alimentação na saúde. Possuímos também, e pela primeira vez, uma estratégia integrada para a promoção da alimentação saudável e, ainda, uma capacidade de diagnóstico do estado da situação alimentar dos portugueses como nunca tivemos. Contudo, persistem e agravam-se problemas sérios, que se misturam com outros menos relevantes. Para reflexão neste importante dia escolhemos seis temas:

O reinado das doenças e a concentração de recursos no tratamento persiste.

Apesar de hoje sabermos que a alimentação inadequada e a inatividade física são os principais determinantes das doenças crónicas que mais nos atingem (diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares, oncológicas...), 70% a 80% dos orçamentos da União Europeia na área da saúde são gastos no tratamento destas doenças e menos de 3% são gastos na sua prevenção. Em muitos casos, bastaria investir seriamente na redução do sal, do açúcar e aumentar a actividade física para se conseguirem ganhos espectaculares nesta área. No entanto, a pressão para que estes ganhos em saúde continuem a ser fornecidos a preços elevados por medicamentos é enorme e não parece baixar. Infelizmente, as maçãs e as alfaces, que poderiam contribuir para resolver o problema a baixo custo, não têm lóbi.

As doenças de base alimentar, como a obesidade, são doenças comportamentais de raiz social e cultural.

O seu tratamento é difícil e falha com frequência, porque implica uma atenção prolongada aos doentes que ultrapassa o actual modelo de consulta rápida. E obriga a um compromisso para a criação de condições ambientais à volta do cidadão que contrariem o atual ambiente obesogénico. Para isso, é necessário juntar, entre outros e na mesma equipa, profissionais do planeamento urbano, segurança, emprego e ação social, transportes, educação e saúde. E decisores políticos locais e representantes da sociedade civil. O local onde este conhecimento e poder integrado converge e se aproxima de todos os cidadãos é a nível das autarquias e do poder local. Um desafio enorme para o sector da saúde.

A literacia alimentar continua a diminuir à medida que a literacia nutricional aumenta.

Com uma sociedade cada vez mais afastada dos locais de produção alimentar, dos modos tradicionais de confeção e do contacto precoce com sabores e pratos de referência, a aprendizagem do gosto está hoje a artificializar-se rapidamente. Sabemos, genericamente, da importância da nutrição na nossa saúde, mas este conhecimento através da boca e dos sentidos está a desaparecer rapidamente. Seremos ainda capazes de reconhecer um leite genuíno, com maiores quantidades de ómega 3? De valorizar um porco alimentado a bolota, com menor quantidade de gordura saturada, se não tiver o respetivo rótulo? Ou um salmão do Atlântico que não venha pintado artificialmente de cor-de-rosa? Estamos em crer que não, no meio de tanta informação e rótulos sobre nutrientes, enquanto ninguém nos ensina, em casa e na escola, a escolher sensatamente com os nossos sentidos e uma faca e um garfo na mão.

Aumentam os conflitos de interesses entre os profissionais de saúde.

Torna-se cada vez mais difícil em alguns países ocidentais encontrar cientistas, profissionais e sociedades científicas que não dependam do financiamento de empresas da área alimentar em que desenvolvem trabalho. E o cerco também se aperta em Portugal e noutros países periféricos. A situação poderia ser menos grave se os conflitos de interesse fossem declarados e as instituições da sociedade civil fossem mais fortes e com capacidade de investigar a transparência e a prestação de contas, mas ainda estamos longe de atingir esse objectivo.

O aumento das desigualdades alimentares agravou-se nos últimos anos com a crise social e económica na Europa.

Actualmente, é cada vez mais visível uma polaridade alimentar. Associada a uma polaridade social. De um lado, uma franja da população capaz de uma alimentação saudável tendo por base produtos frescos de origem vegetal, por vezes em modos de produção biológico, sazonais, favorecedores de uma disponibilidade elevada de nutrientes, particularmente fitoquímicos, e no outro extremo uma população com uma alimentação ou um padrão alimentar recorrendo a alimentos hipercalóricos, com intensificadores de sabor artificiais, híperprocessada e rica em sal, açúcar e gordura. Bastante mais barata e disponível em modo fast-food 24 horas, 365 dias do ano. E com recursos para ser publicitada intensamente. Comer saudável protegendo o ambiente e pagando adequadamente aos produtores tem um custo que ninguém está, para já, disposto a pagar.

Na área alimentar, o lixo comunicacional que nos inunda não nos ajuda a escolher.

As redes sociais e a informação instantânea e online replicam hoje quase tudo com nenhum ou quase nenhum filtro. Por isso, por cada estudo científico que sai, por muito contraditório que seja com o que se sabe até ao momento, é publicado como descoberta recente e consensual. Abunda também a publicidade disfarçada de informação. E pelo meio o jornalista generalista que é colocado nesta selva. São milhares os lobistas no agro-alimentar, o maior negócio do mundo. E agora que grande parte da investigação científica na área alimentar está a deixar de ser financiada pelos Estados soberanos e passa ser financiada pelos próprios interessados no negócio, a informação científica enviesada e produzida num só sentido, ainda que seja de qualidade, só terá tendência a aumentar. Depois de produzida, esta informação ficará adormecida nos locais certos, numa qualquer revista científica, à espera de ser capturada por um adequado pipeline informativo.

O retrato parece ser pessimista. Exagerado até. Mas chamar as coisas pelos seus nomes e enfrentar o que temos pela frente é a melhor forma de se viver o «optimismo da vontade».

Director Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável

Fonte: Diário de Notícias


 
 
17-10-2016
       
 
   
 
 
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